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Raimundo Nonato de Miranda Chaves

Fazenda Camilinho era Fazenda das Abóboras

Quando se procedeu ao Registro de Terras Públicas, mandado fazer pelo Imperador Pedro II; não se registrou fazenda com o nome Camilinho; nem se fez qualquer referência ao povoado de mesmo nome. Diversas glebas foram registradas na Fazenda das Abóboras, cujas divisas, coincidem com a fazenda que, atualmente, se denomina: Camilinho.

Sir Richard Francis Burton, em seu famoso livro Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico relata, com detalhes, o desvio da rota principal; deixando sua embarcação ancorada na Fazenda Bom Sucesso, município de Curvelo. Empreendeu, em tropa de burros, a viagem a Diamantina, em 27/agosto/1867.

Depois de pernoitar em Riacho dos Ventos, Sir Burton continua sua descrição minuciosa, referindo-se à subida da Serra, ao Córrego das Lages, à Bacia do Limoeiro, à Contagem do Galheiro que ele chama de Contagem das Abóboras e finalmente, transcrevo:

“Logo depois, chegamos a uma miserável povoação de casinholas e ranchos, chamada Camilinho, nome de algum ‘régulo da roça’ que foi o primeiro a fixar-se ali. Um honesto rancheiro, Luis Monteiro, aloja homens e animais. Em sua ausência, a esposa forneceu-nos café e comida, enquanto as mulas ficavam presas em um bom pasto fechado, bem próximo. Em torno das cabanas, zelosamente fechadas, e repletas de galinhas, pombas e negrinhas, cresciam uns poucos cafeeiros e bananeiras sic...”

Antes, 12/06/1857, José Ignácio Saraiva vende a Francisco Joaquim Dornas, parte de terras na Fazenda das Abóboras e casa sita no lugar denominado Camilinho.

Depois, 05/01/1885 Agostinho Teixeira de Toledo e Bernardina Claudina d’Alvarenga vendem casa sita no lugar denominado Camillinho, na margem esquerda do córrego Sepultura, e do lado de cima da estrada geral que vai para o Sertão. Importante: casa recebida, por herança, de Francisco Joaquim Dornas e vendida a Antonio Francisco Pinto Mundeo.
Mundeo, por compras e pelo casamento com Idalina chegou a possuir toda a Fazenda das Abóboras, situada na margem direita do córrego Sepultura, e, também de casa na margem esquerda.

Por transmissão oral sabe-se que na dita casa residiu, muito antes,um Camilo de tal, confirmando a suposição de Sir Burton.

A casa em questão, de Mundeo foi transmitida a Niquinho Miranda, seu filho, que a vendeu para a Hulha Branca para residência de funcionário responsável pela manutenção da rede elétrica no percurso usina do Parauna-Gouveia. Hoje, a casa, reconstruída, é propriedade de João Hipólito dos Santos. Certamente, não houve uma data em que se deu a absorção do nome abóboras; mas com o tempo o nome Camilinho predominou e, hoje, o nome abóboras está esquecido.

Camilinho x Camelinho

Documentos antigos: livros e escrituras públicas, escreve-se Camilinho e não Camelinho; também, faz-se referencia à existência de um residente chamado Camilo.
No entanto, uma facção insiste em defender a denominação: Camelinho, justificando-se com a constatação que a linha da Serra é similar à linha do dorso de um Camelo. A questão que se coloca então é: Por que os antigos não observaram isto? Será que não haviam visto a figura de um camelo?
Outra facção argumenta que, na região, há muitas localidades com nomes de animais, tais como: tigre, onça, coelho, tamanduá. Neste caso, por analogia, o local em questão deveria ser denominado: Camelo e não Camelinho. Afinal não usaram diminutivo em nenhum dos topônimos citados. Não se fala em oncinha, nem em coelhinho. Finalmente, se é para homenagear um animal, então, por que não faze-lo com Camilo? Não era ele tambem um animal?

Historia

é conhecida a cadeia de afloramentos rochosos que separa a antiga região de mineração, seja o antigo Distrito Diamantino, da região produtora de alimentos, conhecida como Sertão. Esta cadeia tem dois pontos onde pode ser transposta: Contagem do Galheiro e Quartel do Peixe. Nestes pontos, ao tempo da extração de diamantes, era exercida rigorosa fiscalização a fim de impedir a saída ilegal de diamantes.

O percurso para atingir a Contagem incluía, necessariamente, a passagem por Camilinho. Portanto, Camilinho, inicialmente, ligava a região mineradora à região produtora de alimentos – o Sertão; e, posteriormente, ligava a Zona da Mata – tradicional produtora de café, à região de Curvelo, na época terminal ferroviário. Havia também, neste percurso, considerável movimentação de boiadas vindo do vale do Rio Doce e do Médio Jequitinhonha para as invernadas de Curvelo e Corinto. O posicionamento beneficiou a comunidade, seja pela possibilidade de prestação de serviços ao viajante, seja pela oportunidade de comércio.

Camilinho: Fazenda e Comunidade

A fazenda das Abóboras se transformou na fazenda Camilinho.
A comunidade Camilinho inclui ainda, integral ou parcialmente, antigas fazendas conhecidas como: Mandaçaia, Cedro e Garrafa. Nelas residem as famílias que freqüentam a Capela N.S. das Dores, cujos filhos são estudantes da Escola Municipal João Baiano, são atendidas no Posto de Saude e votam na seção eleitoral, tudo localizado na sede da fazenda.

Familias da fazenda Camilinho

Família Dornas
Francisco Joaquim Dornas, proprietário de terras na Fazenda das Abóboras, casado com Idalina Bernardina da Conceição. Idalina era membro da importante família Alves Ferreira, com referência especial a Lionel, Quintiliano e Pacífico. Lionel, irmão de Idalina, era sogro de Juscelino Pio Fernandes, o lendário Coronel Sica. Quintiliano, Barão de São Roberto e Pacífico também foram, proprietários de glebas na Fazenda das Abóboras.

Família Pinto de Miranda
Antônio Francisco Pinto Mundéo, casado, em primeiras núpcias, com Ambrosina de Miranda, e, em segundas núpcias, com Idalina, viúva de Francisco Dornas.Assim, Mundéo incrementou seus direitos na referida fazenda, além de se tornar membro colateral da influente família Alves Ferreira. Completando os legados por herança, dele e de suas esposas, Mundéo adquiriu, na segunda metade do século dezenove o controle total da Fazenda das Abóboras ampliada com área à esquerda do Córrego da Sepultura.

Deste casamento nasceram três filhos:Antônio Francisco Pinto casou-se, em primeiras núpcias, com Carlota de Miranda, adquiriu a Fazenda do Vassalo. Conhecido como Canequinho foi o idealizador e organizador da romaria – missões do Peixe. Casou-se, posteriormente, com Rosaura Dumont, e, com ela não teve filhos. Elza Alves de Santa Cruz - Bilú, casada com Carlos Ribas Dornas, adquiriu propriedades rurais no município de Curvelo. Manoel Pinto de Miranda - Niquinho, casado com Amélia Augusta de Miranda, adquiriu os direitos de Elza e Carlos Ribas e tornou-se proprietário de grande parte da Fazenda Camilinho. A outra parte tornou-se propriedade do genro João Fernendes Chaves - João Baiano que a adquiriu de Antônio Francisco Pinto.

A Família Miranda Chaves

João Fernandes Chaves, originário da região de Caetité, mais especificamente da localidade denominada: Bonito, hoje, emancipada, com o nome de Igaporã,Bahia. E, residindo em Gouveia, casou-se com Zenilia Zenolia de Miranda, filha de Niquinho. Ao adquirir as terras de Canequinho, em 1928, fixou-se em Camilinho, com domínio parcial da fazenda. Na década de 1960, com a morte dos sogros, ele adquiriu o direito dos cunhados, passando a ter então, a posse e o domínio total da propriedade.
Hoje a fazenda é propriedade de seus filhos João e Raimundo.

A comunidade, muito mais ampla do que a fazenda, se tornou conhecida pela instalação, inicialmente, dos ranchos de tropas e das vendas. E, mais tarde, pela construção da Escola e da Capela. A Capela de N. S. das Dores foi construída por Manoel Pinto de Miranda, em 1918. Os oficiais construtores, contratados por Niquinho foram dois irmãos gêmeos: José Francisco Pinto e Francisco José Pinto. Os mesmos que construíram a Capela de São Miguel e Almas, na localidade denominada Cemitério do Peixe e mandada construir por Caniquinho.

Festas religiosas

Celebra-se, anualmente, a festa de Santa Cruz, no primeiro domingo de maio. Esta celebração ocorre desde os primeiros anos do século XX, quando Niquinho Miranda ergueu um grande cruzeiro, na frente de sua residência. Posteriormente, em 1916, o mesmo Niquinho Miranda mandou erguer a capela de N.S. das Dores, um pouco acima do cruzeiro. A celebração, hoje, consta de missa, procissão, levantamento do mastro com a bandeira de N.S. Senhora. A bandeira é transportada, em procissão noturna iluminada por fogueiras de canelas; desde a residência do proprietário da fazenda até a frente da capela, onde o mastro é levantado. Os participantes da procissão conduzem velas, e, tudo se desenvolve ao som da Folia. Antigamente, faziam-se batizados, casamentos, e folguedos tais como: pau de sebo, corrida de sacos, quebra pote e outros.

Celebra-se também a tradicional cerimônia da Semana Santa, com representação ao vivo que se inicia no Domingo de Ramos.

As orquídeas da foto a seguir, também são de Camiliho.