Mandaçaia x água Parada

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Raimundo Nonato de Miranda Chaves

Ao descrever a “Formação histórica do espaço de Gouveia” in Plano Diretor – Diagnostico e Diretrizes – Gouveia setembro/2006; diferentes origens de povoados e povoações são analisados. Depois de fazer referência à população indígena original, expulsa ou assimilada pelos invasores prossegue a narração: Aldeias surgirão em um novo contexto e se instalarão na forma híbrida dos quilombos ou das povoações de crioulos forros. Alguns topônimos registram essa forma de habitar afastada do mundo da exploração do trabalho, ao mesmo tempo em que livre para estabelecer relações comerciais com ele. Caxambu, Cafundó, Espinho, são alguns topônimos que indicam possibilidades dessa nova opção de aldeias permanentes até os dias atuais. E, finalmente, sugere que se apresentem diretrizes especiais para estes sítios. Mandaçaia é um sitio que talvez não apresente as características citadas, mas é um nome muito especial: Sob o peso de toda esta história o termo: Mandaçaia está desaparecendo, ou já desapareceu, em beneficio da expressão: água Parada.
água Parada é nome do Centro de Irradiação, ver a publicação Gouveia Sempre Viva; é a sede da Escola Municipal Niquinho Miranda, é o nome nas placas de indicação das estradas vicinais, é o ponto final de linha de ônibus municipal. Isto só pode ser por artes de algum criador de Aedes aegypti

Fazenda Mandaçaia

O Centro de Irradiação água Parada ocupa a área da antiga Fazenda Mandaçaia,
Em 1856, quando se fez o registro na região de Gouveia, registraram-se vinde glebas na dita fazenda. Atualmente, pode-se encontrar famílias residentes, com os nomes dos antigos proprietários, tais como: Almeida, Costa, Mendes, Miranda, Moura, Pena, Santos, Silva e Vieira.
Analisando as divisas, os cursos de água na quase totalidade do perímetro, sugerem a existência de muitas baixadas, de solos com boa fertilidade. Por outro lado, também em conseqüência disto, a comunidade pagou um preço alto correspondente ao custo da poluição das águas em conseqüência de mineração a montante, nos rios Ribeirão de Areia, seus afluente, e no Rio Parauna. Esta situação está, pelo menos temporariamente, resolvida ao ser proibido a mineração.
A atividade econômica é semelhante àquela descrita na página de Camilinho. Se incluir o Tigre, núcleo comunitário ligado à água Parada, então a pecuária conta com pelo menos três grandes propriedades, que se dedicam à criação de gado de corte. Duas delas iniciando reflorestamento em áreas de pastagens. Um diferencial da comunidade água Parada, é existência de dois centros de irradiação:
a Escola Municipal Niquinho Miranda, na margem direita do Córrego água Parada , com alunos das primeiras series do Fundamental.
A Igreja São José e o Mini-armazem, na margem esquerda do Córrego Sepultura. O mini-armazem é um amplo galpão com maquinas tais como: desintegrador de milho, batedeira de feijão, e outras, instaladas para atender aos produtores a custa de pequena taxa para manutenção. O mini-armazem foi instalado na década de 1970, vigência do Projeto MG-II, financiado com verbas de Acordo `celebrado pelo Governo de Minas com o Banco Mundial.
A Igreja São José foi construída, pouco tempo depois, graças ao esforço e dedicação da Família Moreira, residente nas proximidades. Parece que havia o sonho de criar um núcleo, uma concentração, numa povoação esparsa. O sonho ainda não se concretizou.

Evento Cultural

Festa de São José. Começou em 1984 com a construção do Cruzeiro de Concreto em substituição à Cruz de madeira, corroída pelo tempo. Na frente desta cruz sepultavam a crianças pagãs (falecidas sem batismo).
Atualmente a festa é na Igreja São José, construída em 1989 na margem esquerda do Córrego Sepultura, entre as comunidades de Camilinho e Agua Parada. A festa é realizada com missa, levantamento do mastro, show pirotécnico, folia e barraquinhas.
A procissão no domingo, se realiza ligando as duas Igrejas: N.S. das Dores de Camilinho e São José. Realizado o encontro do padroeiro com N.S. eles seguem juntos até a Igreja São José escoltados por grupo de cavaleiros.

Nucleos Comunitarios

São núcleos comunitários de água Parada: Tigre, Onça situado na margem esquerda do Córrego do Tigre e Feijoal situado na margem direita do Córrego Sepultura; portanto, os dois últimos estão fora da antiga Fazenda Mandaçaia.
A historia do Tigre apresenta-se em três atos: o Tigre nos séculos XIX, XX e XXI.

Tigre no século XIX

O relato se inicia com Manoel Hernesto de Miranda, que declarou possuir glebas nas fazendas: Mandaçaia e Abóboras; a orientar-se pela declaração, era dos maiores produtores rurais da região. Considerando as confrontações da Fazenda Mandaçaia, em que sempre há referência à passagem, no Córrego do Tigre, chamada de passagem Manoel Hernesto; justifica-se a residência de Manoel Hernesto onde é hoje a sede da Fazenda do Tigre. O nome Miranda tem certa importância na região, e, parece que Manoel Hernesto, os Miranda de Camilinho, e, pelo menos parte, os Miranda de Gouveia têm origem comum.
Na segunda metade do século XIX residiram em Camilinho, possivelmente, descendentes de Manoel Hernesto:
  1. Ambrosina de Miranda, casada com Antonio Francisco Pinto Mundeo (1a. núpcias), são os pais de Francisco Pinto de Miranda, conhecido como Chico Pinto, com descendentes em Gouveia (família de Nhá de Gloria) e em Capitão Felizardo (família de Chiquita e Levindo Pinto).
  2. Maria da Costa Miranda, casada com Valeriano da Costa Penna, são os pais de Amélia Augusta e Lozinha de Miranda.
    Amelia se casou com Niquinho Miranda e tornaram-se a origem dos Miranda de Camilinho; descendentes deste casal e associados da AFAGO, são: Jadir, Milton, Manoel Luiz, Geraldo da Consolação e Raimundo Nonato.
    Lozinha se casou com Juquinha Ribas e deste casal originou parte dos Miranda de Gouveia, cuja referência mais conhecida é João de Miranda Ribas, pai dos associados da AFAGO: Haroldo Antonio. Yara, Yvone e Yolanda
Não se pode falar do Tigre sem se referir à Capela de São Sebastião, peça importante do patrimônio cultural do município; está pedindo alguma atenção da autoridade responsável.

Também não é possível esquecer-se do Cemitério do Tigre. A respeito, palavras de Sir Richard Burton quando de sua famosa viagem a Diamantina
à direita, em uma depressão chata e verde, junto à margem do Ribeirão do Tigre, outro afluente do Paraúna, havia casas e pequenas roças; na encosta do morro, uma alta cruz negra em uma base nova e um cemitério construído há pouco e já em atividade”.
Portanto o Cemitério do Tigre foi construído antes de 1867, é o único cemitério na região. Atualmente, está desativado; mas é um patrimônio que tem que ser protegido. Já se fez pedido à Prefeitura, através da Secretaria Municipal de Cultura, para que o poder público assuma a responsabilidade pelo patrimônio.
Antes de passar ao segundo ato duas notas importantes: o nome oficial do Tigre e completo é São Sebastião do Tigre; e, nesta povoação já fora criada uma escola de instrução primaria ainda no final do século XIX. Isto caracteriza a importância da localidade na época.

Tigre no século XX

Juscelino Pio Fernandes, o lendário Coronel Sica era uma personalidade destacada em Gouveia e em Diamantina, ali, foi chefe do executivo municipal, cargo equivalente, hoje, ao prefeito. Casado com Etelvina; esta, filha de Lionel Alves Ferreira, da tradicional família Alves Ferreira de Gouveia.
Durante vários anos dirigiu a Fabrica de Tecidos São Roberto, e, continuava no c argo quando ocorreu a crise econômica mundial que provocou a falência da empresa que dirigia. Depois desta ocorrência o Coronel Sica se isolou na Fazenda do Tigre, onde permaneceu até a morte. Está sepultado, junto com a esposa Etelvina, no cemitério a que se referiu antes.
O Coronel Sica tinha uma atenção especial com João Baiano, meu pai, que com ele trabalhara, enquanto jovem, em São Roberto. Certa vez, meu pai e eu passamos na fazenda para cumprimenta-lo. Ele que se dedicava também à criação de eqüinos, nos convidou para ver o plantel que estava no curral. Depois de alguma conversa ele chamou Basílio, empregado de muitos anos, magrela e manco de uma perna, mas ágil como um gato, montava como o curupira, e disse-lhe: Basilio! Você que conhece a tropa, escolha a melhor potranca para Raimundo.
Foi assim ganhei minha potranca alazã, calçada de quatro patas.
Em 1940, a Escola de Camilinho estava sem professora havia dois anos e foi o prestigio do Coronel que fez a Prefeitura de Diamantina contratar uma professora. São pequenos relatos, pinçados ao acaso, com o objetivo de mostrar a personalidade do velho coronel.
A foto mostra a elegante figura do coronel ao lado do Pe. José Sales, então, diretor do Seminário de Diamantina. Naquele dia, em 1945, os seminarista de Diamantina fizeram um passeio à Fazenda do Tigre. a viagem nos caminhões de Chiquinho de Nelo, grande empreendedor de Gouveia. A foto retrata uma parada em Gouveia, na frente a figura de Chiquinho (Francisco Xavier de Oliveira).
Está se falando de seminaristas; por que não apreciar a foto, considerada angelical porque tem, pelo menos,dois Serafim: O Gomes Jardim, assinalado com o no. 1 e o Fernandes Araújo, ainda seminarista), com o no. 2. O no 3, não é Serafim, mas é o responsavel por este site.

Tigre no século XXI

José Torres, empresário de Belo Horizonte, adquiriu a Fazenda do Tigre, depois da morte do Coronel Sica, e fez dela uma grande fazenda de criação de gado de corte. Criando nelore puro e cruzado com simental e com angus. Reformou as pastagens e as instalações.
José Torres hoje falecido, mas a propriedade continua com sua família que reformou a casa sede com o cuidado de manter o estilo antigo, assim como, as jaqueiras centenárias
acrescentando um jardim com diversas espécies de orquídeas; tal que o conjunto, extremamente agradável, tornou-as a sede mais bonita do município.