Introdução

Comentários
Raimundo Nonato de Miranda Chaves

No registro paroquaial de 1856, não há referência à localidade Pedro Pereira; há, um registro referindo-se à Ponte Izabel Pereira, hoje Núcleo Comunitário. Supõe-se, pela coincidência de nomes, que a figura Pedro Pereira tenha se originado alí.
Pura suposição. A localidade Pedro Pereira tem, pelo arruamento de residências, aparência de povoado; e exerce influência sobre os Núcleos Comunitãrios seguintes:

A Escola Municipal Profa. Zezé Ribas, instalada em Pedro Pereira, é, juntamente com a Escola Municipal João Baiano, de Camilinho, as únicas escolas municipais que oferecem o segundo ciclo do ensino fundamental: 5a. à 8a. series.

Espinho: comentários da mestranda Carolina Dias de Oliveira

“As relações artesanais e o estímulo ao Desenvolvimento Local no Brasil, em Gouveia-MG e outras diferentes escalas” é o título de Tese de Carolina Dias de Oliveira, defendida em 2007, no Instituto de Geociências da UFMG, para obtenção do Mestrado em Geografia.
Em Gouveia, Carolina trabalhou com as comunidade de Cuiabá e do Espinho.
Neste "site" a busca é por informações sobre as comunidades rurais do municipio de Gouveia, a história, os hábitos e costumes, a economia, a cultura e mais o que for possível encontrar.
O trabalho de Carolina tem outro foco: O Desenvolvimento Local e as relações entre globalização, padronização e descaracterização do fazer artesanal. Portanto, uma linha de informações completamente diferente. Assim, seus comentários sobre Espinho são transcritos, logo abaixo; mas construiu-se tambem, páginas extras para o internauta interessado no tema: A comunidade de Espinho, por sua vez, caracteriza-se como “remanescente de quilombos”, e encontra-se a dezessete quilômetros de distância da sede. O acesso se faz por uma estrada de terra que apresenta diversas interseções que podem causar certa confusão, caso o condutor não fique atento ao percurso. A comunidade encontra-se entre as depressões intermontanas das escarpas quartizíticas do complexo da Serra do Espinhaço.
Ao chegar à comunidade, as casas encontram-se dispersas pela área que abrange os seus limites, algumas com difíceis acessos, sendo impossível a chegada em determinados locais por meio de veículos automotores. Os acessos secundários são difíceis e caracterizados por uma vegetação de pequeno e médio porte. Não há praça ou um outro ponto qualquer que sirva de referência ou confraternização. O único ponto em comum, e de melhor acesso, é o prédio da escola municipal, localizado na comunidade vizinha, Pedro Pereira. As casas são pequenas e sua estrutura é feita de pau a pique, sendo que apenas recentemente foram introduzidos banheiros com fossa séptica. Algumas delas remontam ao período colonial, segundo datações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAM), e possuem, aproximadamente, 450 anos.
Em Espinho, há aproximadamente 65 famílias que se caracterizam como afro-descendentes. Todavia, a classificação da comunidade enquanto remanescente de quilombos é considerada, sobretudo, externamente, pois os moradores não costumam fazer tal afirmação; ao contrário, constantemente, seus habitantes tentam dissociar a vinculação de sua imagem e seu passado com a sociedade negra escravocrata, diferenciando sua condição através da tipificação de ‘negros escravos’ e ‘negros de trabalho’.
Outro aspecto marcante é a significativa hospitalidade dos espinhenses, principalmente, notada nas mulheres, que predominam na comunidade. Segundo tal interação com o visitante de modo assustadoramente carinhoso e educado, muitas vezes corresponde a uma estratégia de reconhecimento do grupo pelos demais gouveianos. Isso porque, em função do forte preconceito transferido aos espinhenses (“lá até o cuspe é preto”, “lá eles jogam pedras nos estranhos”, etc), estes últimos tentam quebrá-lo, ou mesmo para demonstrar o oposto.
Assim, conseguem obter tratamento diferenciado em relação às demais comunidades, ocupando a posição de ‘preferidas’.
Não raro, o visitante é recebido com grande euforia, sendo agraciado com expressiva hospitalidade e gentileza. “Há entre eles muitas histórias que contam como a maior hospitalidade de Espinho em relação a Gouveia e de outras comunidades vizinhas teria levado o a preferir Espinho” (ROSA, 2004, p.39) A comunidade de Espinho também prioriza relações mais fechadas entre seus membros, raramente havendo casos de casamento entre estes e pessoas das demais comunidades. Segundo ROSA (2004, p.78), há o uso de dialetos próprios, derivados da língua africana, que são pronunciados em momentos específicos, tais como o matrimônio, os batismos e funerais. Ao contrário da população cuiabana, a comunidade de Espinho não se sente à vontade para falar de suas origens, demonstrando vergonha e mesmo receio deste assunto, provavelmente em função do forte preconceito que sofrem por grande parte da população de Gouveia.
Observou-se que alguns deles chegam a se esconder no mato com a chegada de pessoas estranhas, e outros ficam observando de longe. Desse modo, torna-se necessária a presença de algum ‘intermediário’ para viabilizar a comunicação: “(...) muitos escondiam-se debaixo de camas, dentro de casa, quando ouviam o barulho de automóveis ou viam estranhos aproximar-se.” (ROSA, 2004, p.34-35)
A comunidade de Espinho também se apresenta envelhecida, devido ao significativo processo migratório, especialmente de homens e jovens, em direção aos grandes centros urbanos, principalmente São Paulo. A figura da moradora mais antiga da comunidade explicita este processo.
Segundo datação feita pelo IEPHA, a casa em que reside possui cerca de 210 anos. A moradora mais antiga da comunidade de Espinho possuía 92 anos no momento da entrevista (julho de 2005). Ela relatou que a comunidade tem mais de trezentos anos e explica que o nome “Espinho” se deu em função da elevada quantidade e variedade de plantas espinhentas na região, especialmente nos córregos: “Toda qualidade de espinho tinha nesses córregos aqui: espinho agulha, unha de gato, escuta cá (...)”.
A economia também se baseia, principalmente, em agricultura familiar, tendo como principais produtos o arroz, o feijão e a cana. Cabe destacar que outra importante fonte de renda se dá através da destinação de remessas de dinheiro enviado por familiares que moram e já se estabilizaram nos centros urbanos. Contudo, mais expressivo do que as atividades agrícolas encontra-se o artesanato feito à base de palha de milho, referência para o município que, então, passa a realizar o marketing artesanal nesta comunidade a partir de seu aspecto peculiar: o passado quilombola.
Em entrevista, a moradora mais antiga de Espinho disse que a técnica do samburá foi aprendida pelos moradores da comunidade há muito tempo, quando do matrimônio de um velho que trabalhava na comunidade com uma moça chamada Maria. Esta ensinou os procedimentos para tecer a palha de milho e fazer o samburá.. Segundo ela, durante muito tempo os moradores locais dominavam a técnica desse tipo de bolsa, e apenas o faziam para fins domésticos (levar para a escola, fazer feira, etc), pois não almejavam interesses comerciais. Apenas em tempos mais atuais, cerca de sete anos da época da entrevista, é que a técnica da palha foi aprimorada e diversificada em outros artigos, através de auxílio da EMATER de Gouveia: “Antes só os velhos sabiam fazer samburá”. Relatou, ainda, que, atualmente, há cursos que ensinam a técnica para as crianças. Sobre as fontes de obtenção de renda na comunidade, anteriores às práticas artesanais, ficou confirmado que a renda provinha do garimpo e da venda de farinha de mandioca, conforme relatos dos moradores locais. E em relação à atividade agrícola na comunidade, um dos cunhados da entrevistada disse que, atualmente, as terras não produzem mais como antes, e que o retorno financeiro com a venda é muito baixo e às vezes não compensa. Ele destacou a dificuldade de levar os produtos para expor na Feira Livre de Gouveia e a falta de transportes para o escoamento. Segundo ele, o ônibus municipal que atende a comunidade passa três vezes por semana, e muitas vezes não atende à demanda local: “Condução nossa aqui é coisa incerta. Passa dia sim, dia não. Fica difícil. (...) às vezes não dá pra levar todo mundo. Tem até que deixar parte da mercadoria pra trás”.
Os moradores presentes afirmaram que há um acompanhamento médico mensal realizado na escola mais próxima, na comunidade vizinha de Pedro Pereira. Não há posto de saúde e nem telefone O espinhense conserva a tradição de danças: Caboclinhos Espinho é uma região desprovida de adensamento de edificações. As casas existentes são sedes de fazendas, de arquitetura simples, que remetem ao estilo colonial. Espinho é formado por uma comunidade mais fechada, de habitantes negros que conservam instrumentos de produção artesanal até os dias de hoje.