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Resumo da Tese

A relação das atividades artesanais e o estímulo a práticas de Desenvolvimento Local no país, associadas (direta ou indiretamente) às mutações sofridas na (re)configuração dos territórios pela globalização, compõem o tema foco deste trabalho.
O objetivo é relacionar os impasses ligados ao fazer artesanal às possibilidades de iniciativas de Desenvolvimento Local (DL), em especial para Cuiabá e Espinho, no Alto Jequitinhonha em Gouveia-MG.
Contextualizam-se tais iniciativas face aos diferentes contextos e escalas brasileiras. Isso porque Desenvolvimento Local e o estímulo ao artesanato ganham notoriedade federal, com o Governo Lula.
Pretende-se contribuir para um melhor entendimento sobre a descaracterização e mercantilização do artesanato e sua relação com o processo de globalização, seus impactos e banalizações nas esferas regional e local (especialmente no plano vivido), a fim de se pensar o futuro em microescalas menos excludente. Foram priorizadas as fontes qualitativas, predominando a Observação Participante e a História Oral, através de relatos de vida, análise de documentos oficiais, aplicação de questionários, registros fotográficos e entrevistas com atores-chave de Espinho e Cuiabá, de Gouveia e Diamantina (cidade-pólo).
Em que medida o incentivo às práticas artesanais via Desenvolvimento Local permite a melhoria da vida de pessoas, no Alto Jequitinhonha? Quais são os alcances, inversões, contradições e fatores limitantes para a implementação de iniciativas voltadas para o Desenvolvimento Local no Brasil, em Gouveia, e em outras diferentes escalas analisadas? Estas reflexões permeiam e norteiam esta pesquisa.
Gouveia apresenta uma gama de fatores favoráveis e limitantes ao Desenvolvimento Local sob a influência de Diamantina, e seus povoados, Cuiabá e Espinho, possuem práticas cotidianas artesanais fundamentais à sua manutenção.
Os principais atores, o posicionamento político, a crítica, os benefícios públicos concedidos e conquistados e a própria construção da autonomia, conforme as características de cada comunidade foram averiguados. Logo, conceitos como autonomia, identidade, comunidade, participação e cidadania constituíram-se base de análise para o estudo.
Ao final, pretendeu-se delimitar como as ações voltadas para o Desenvolvimento Local se aproximam de um enfoque mais social ou econômico; quais permanências e obstáculos constituem tais práticas e, ainda, como as novas gerações e gestões conseguem (ou já conseguiram) romper com este encaminhamento. E assim possibilitar a reflexão de como estas iniciativas podem (ou não) colocar-se a serviço de uma política progressista e emancipatória, apesar de suas limitações e críticas.
Como obstáculos observou-se a existência de uma geometria do poder predominante em Gouveia, explicitada por uma espécie de hierarquização dos artesãos e uma descaracterização das iniciativas direcionadas ao DL. Processo este que reflete o cenário vigente na escala macro, em que o DL é estimulado pelas prefeituras para atender a interesses particulares, reduzindo e distorcendo a noção de DL a programas econômicos para geração de emprego e renda.
Isso tudo inserido em um contexto de fragilidade das associações, partidarismos, falta de cooperativismo e assimetrias na relação entre a sociedade civil e o Estado. Além disso, foi notado que órgãos públicos e privados, a exemplo do SEBRAE e da EMATER acabam por incitar a descaracterização do artesanato, através de influências padronizantes e de uma postura mercadocêntrica estimulada como prioridade. Por fim, o processo de compressão espaço-temporal refletida nas microescalas analisadas ratifica a mercantilização e a perda de vínculos culturais com os lugares, sua identidade e subjetividade.