AFAGO - Associação dos Filhos e Amigos de Gouveia

Retornar



Prêmio é para o trabalho que puder receber crítica

José Moreira de Souza

A AFAGO acaba de aprovar o regulamento para os trabalhos de conclusão de cursos de graduação dos estudantes que tomaram como objeto de estudo algum aspecto pertinente à nossa Gouveia e que pretendem concorrer ao Prêmio AFAGO de Monografias – edição 2009.
Neste artigo, vou tecer algumas considerações sobre o critério principal de julgamento desses trabalhos. Lembro que se trata apenas dos Trabalhos de Conclusão de Curso, chamados de monografias, projetos técnicos, ensaios acadêmicos ou nomes parecidos. Todos são Trabalhos de Conclusão de Curso – TCC – mas se diferenciam no modo de abordagem e tratamento do objeto. Para cursos de graduação em História, Ciências Sociais, Economia, Direito e Psicologia, a monografia pode ser a forma mais adequada de abordagem de um objeto de estudo; para cursos como Turismo, Administração, Pedagogia, Urbanismo, Arquitetura e Engenharia, os projetos técnicos tornam-se formas mais pertinentes de abordar um objeto para demonstrar aproveitamento. O ensaio torna-se mais indicado para cursos do tipo Filosofia, Letras com ênfase em lingüística ou literatura, Música com atenção para etnomusicologia e assemelhados. Apesar disso, todos os TCC têm aspectos em comum. Todos devem anunciar o objeto que será construído, exibir sua fundamentação, enunciar o problema de estudo e seus componentes e a forma de construção do objeto calcada no problema enunciado. O que distingue uma monografia é o cuidado de explorar o objeto do ponto de vista dos preceitos da pesquisa científica. Quer dizer, o problema explicitado em uma monografia deve, necessariamente, conduzir o autor a estudos empíricos e a conclusões que confirmem ou refutem a fundamentação desse objeto. Uma monografia deve explicitar, no problema formulado, um componente interpretativo – teórico, normativo, doutrinário ou ideológico –, um componente empírico – a ser pesquisado pelo uso de entrevistas ou de registros documentais, ou de observação: gravações, fotos -, e um componente metodológico que deixe claro a maneira como o componente interpretativo vai se articular com o componente empírico.
O projeto técnico tem muita coisa parecida com a monografia, mas sua distinção principal é o interesse em examinar e avaliar sua aplicação à prática. Um exemplo. Quando eu pergunto: Porquê não há nenhuma memória local da existência do candombe em Gouveia, mas sobrevivem restos de pontos de candombe tais como – “eu virei tico-tico, eu virei sabiá, eu virei fulano, de pernas pro ar”? ou “Fui na casa de tolo/ tolo ficou ladino”? Ou esta outra pergunta: Quais foram as causas que levaram os trabalhadores que atuaram na reforma da usina da Ulha Branca do Paraúna a contraírem doenças do trabalho em massa? Essas perguntas são típicas de uma abordagem que exige um tratamento monográfico. Sem mudar de tema, eu posso me obrigar a abordar um novo objeto do ponto de vista de um projeto técnico. Apenas tenho que mudar a forma de perguntar: De que forma se pode recuperar o extinto ritmo e ritual do candombe em Gouveia? O que se pode fazer para que os trabalhadores que vão construir as novas usinas no rio Paraúna não repitam o que aconteceu com os que trabalharam ali nos anos quarenta do século passado?
Como se vê, é o objetivo que distingue uma monografia de um projeto técnico. Na monografia, eu estou preocupado em conhecer mais profundamente um acontecimento, já no projeto, além de conhecer, quero aplicar o conhecimento e desenvolver um novo conhecimento.
Passo agora para o ensaio. A marca do ensaio é o cuidado de explicitar referenciais interpretativos, sejam eles teorias, normas, regras, princípios morais ou procedimentos. O ensaio está muito próximo do que se chama literatura. é um exercício de livre pensamento. Mas é um livre pensamento rigoroso. O ensaio explora e busca a imagem feliz. Uma boa metáfora. Como resultado, um bom ensaio pode criar uma doutrina, ou um longo discurso ideológico. Um bom ensaio pode estar a meio caminho de uma monografia ou de um projeto técnico. Um dos melhores ensaios que já li é um artigo de ítalo Calvino, intitulado “La poubelle agréée”, publicado na obra O caminho de San Giovanni. [São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 77-101] Nesse ensaio, Calvino percorre todas as recordações que tem disponíveis sobre o ato rotineiro de recolher o lixo e levar até a rua. Há uma pergunta aí: quais as reflexões possíveis despertadas pelo ato rotineiro de encher a lixeira e levá-la até o local onde será recolhida? Monografia, projeto técnico e ensaio não se distinguem pelo tamanho do texto, mas pelo objetivo declarado pelo autor. Na monografia, o autor pretende desenvolver o conhecimento, articulando-o a um contexto empírico determinado pelo problema formulado. No projeto técnico, a intenção é usar o conhecimento disponível para aplicá-lo a uma realidade histórica concreta. No ensaio, o objetivo é desenvolver um conhecimento “desinteressado” que pode favorecer novas interpretações da realidade, tanto em projeto técnico, quanto em monografia.
Essas diferenças exigem que os leitores de TCC busquem tirar o maior proveito dos trabalhos, ou seja, criticá-los.
Será premiado o trabalho que favorecer a crítica mais rigorosa.
Afinal, o que é uma crítica?
Gaston Bachelard insiste que o átomo resiste há mais de dois mil anos. A que se deve tanta sobrevida? Esse autor lembra: a teoria atâmica de Leucipo e Demócrito, os dois atenienses que a formularam na Grécia antiga, sobrevive pelos dois mil anos de crítica que despertou. O átomo da Física Quântica não tem mais nada do átomo de Leucipo e Demócrito, no entanto, a teoria quântica resulta da teoria atâmica desses gregos.
Qual é o trabalho do crítico? Ele consiste no esforço de percorrer com o mesmo rigor o caminho enunciado pelo autor do TCC, buscando chegar às mesmas conclusões, utilizando as mesmas fontes de fundamentação, os mesmos recursos metodológicos e os mesmos instrumentos de produção de relatórios empíricos.
O crítico quer apenas acompanhar o autor. Nada mais do que acompanhar. Se nesse esforço, ele chegar a outro lugar, é porque o autor falhou em suas instruções.
Gosto muito deste exemplo que era narrado em minha casa, quando criança:
O gavião saiu para caçar e, no meio do vâo, encontrou-se com a coruja. A coruja perguntou:
- Onde vai dom Gavião?
- Vou caçar filhotes de passarinho, para os meus filhotinhos.
- Olha lá! - Disse a coruja – não vá pegar os meus, eim?
- Como vou saber quais são seus filhotes? – perguntou o gavião.
- Ora, são os mais lindos do mundo.
A coruja seguiu sua rota e o gavião a sua. Ao retornar ao ninho, a pobre coruja o encontrou vazio. Nada de filhotes.
- Foi o malvado do gavião – pensou imediatamente e foi a seu encalço.
- Dom Gavião, como é que você fez isso comigo? Eu não lhe pedi para não comer os meus filhotes?
- Qual, dona Coruja! Eu não peguei nenhum filhote seu. Encontrei um ninho com três monstrinhos horrorosos. Não tive dúvida. Esses não podem ser os de dona Coruja!
Cráu, pus nas minhas garras e levei para meus filhotinhos.
Meu leitor pode criticar o conto, dizendo: Como a coruja se encontrou com o gavião se a coruja tem hábitos noturnos?
Esse é o início da crítica, mas lembro ao leitor que uma fábula é um gênero literário que não obedece a esse tipo de lógica. Seu objetivo é moral.
Passei a usar essa fábula para fixar o ponto principal da imagem feliz. A crítica é um diálogo entre o leitor e o autor. O leitor considera sempre que o autor lhe forneceu todas as instruções comunicativas para ele chegar à mesma conclusão. No caso, o gavião saiu à procura dos filhotes mais feios, posto que os bonitos deveriam ser preservados como possíveis filhotes da coruja. Ao aprisionar os filhotes da coruja, quer dizer que ela deu instruções equivocadas para o gavião. A coruja foi instruída a melhorar sua comunicação. A reposta dada pela coruja ao problema formulado pelo gavião levou o gavião a mostrar para a coruja que a resposta era inadequada - errada. O gavião chegou a conclusões diferentes.
O que os leitores dos TCC esperam é poder chegar à mesma conclusão dos autores. Os trabalhos que o permitirem serão premiados. Os que não permitirem terão a resposta que a coruja recebeu.
Mais um exemplo. Esse eu não aprendi em casa. Trata-se das definições. Uma definição, ou conceituação, é centro de toda comunicação. Anteriormente falei em candombe e em pontos de candombe. Você sabe o que é candombe? Se não sabe, então eu vou ter que conceituar porque este é um termo central do meu problema. Agora, mesmo que você saiba, eu vou ter que conceituar para não acontecer o que se deu com a coruja e o gavião. Doenças do trabalho, recolhimento do lixo. Tudo isso vai precisar de conceituação.
Disse de ponto. Em Gouveia, especialmente, em discussões políticas, é muito comum alguém dizer: fulano está jogando ponto.
Essa expressão tem origem no candombe. Ponto é uma linguagem cifrada dirigida a outro com o objetivo de provocá-lo. Quem jogou o ponto pode dizer: se a peruca serviu, pode colocá-la. Mas isso só acontece no emprego ampliado do significado de jogar ponto. No candombe, uma pessoa está tocando caixa e cantando: “Eu virei tico-tico, eu virei sabiá. / Eu virei Zé de pernas pro ar.” Na mesma hora, eu, Zé, tenho que me dirigir à caixa e colocar as mãos sobre ela interrompendo o desafio para dar minha resposta.
Dá para ver que candombe é um ritual em que, pelo menos, uma caixa de percussão, está presente – de fato, são três as caixas. Candombe é um ritual dos negros do grupo lingüístico banto que acontecia nos locais de venda de escravos, ou na senzalas, para receber os novos escravos. Com a extinção do tráfico, o candombe passou a fazer parte da festa de Nossa Senhora do Rosário, posicionando-se distante da igreja no momento de hasteamento do mastro. Esse ritual que esteve presente em toda a nossa região deixou apenas restos nos pontos que ainda cantamos ou declamamos.
Prometi um outro exemplo. Dizem que Sócrates estava dando aula de lógica na Grécia antiga e afirmava que toda definição perfeita se faz enunciando o gênero próximo e a diferença específica. Isso é muito útil para as classificações da biologia e para todas as classificações hierarquizadas. Exemplo: Cidade: gênero. Rua: Espécie.
Para ver se haviam entendido a lição, Sócrates pediu que os alunos dessem a definição de Homem. Imediatamente, Platão como o aluno mais brilhante, levantou-se e deu a seguinte definição:
- Homem é um bípede sem penas.
Isso quer dizer que há animais de dois pés – bípede – que não são homens, mas esses animais de dois pés que não são homens têm penas.
Sócrates pediu a Xenofonte, outro aluno, que lhe trouxesse uma galinha. De posse da galinha, tirou-lhe as penas e exibiu-a declarando:
- Eis o homem de Platão.
é isto que é crítica. Sócrates mostrava que a definição, ou conceituação de Homem feita por Platão não era uma definição essencial porque levava a equívocos. Sem criticar ainda o Gênero, a diferença específica levava a conclusões equivocadas, acontecendo o mesmo com Sócrates o que se dera com o Gavião.
Como já viram, é esse o tipo de crítica que receberão os TCC.
Caberá, no entanto, um acompanhamento muito especial aos ensaios. A maior liberdade de construção possibilita ao leitor acompanhar com rigor o texto, orientado apenas pelo valor estético. Ou seja seu poder ou não de criar imagens felizes.
No endereço www.portalgouveia.com.br publiquei um artigo intitulado “Pião como síntese do saber-fazer em Gouveia”. A crítica que o ensaio pode merecer não é se cabe outra imagem, no lugar da construída, mas se a construção está bem feita. A crítica a uma imagem é feita levando em consideração a coerência, apenas a coerência