Carta No. 1

Carta No. 2

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Eu já escrevi comentários de exigências de ambientalistas sobre o homem do campo, considerado o vilão da história. Já escrevi sobre o tratamento dispensado ao homem do campo considerado cidadão de segunda classe. Já escrevi sobre o diferencial de tratamento dispensado às escolas rurais em comparação àquele dispensado às escolas urbanas. Agora, recebo de meu amigo Guido Araújo, cópia da carta-sátira transcrita a seguir, inclusive com a introdução:

É , novos tempos , novas leis , novas punições, cabresto curto . DEUS dá, o homem destroi ... uma pena que assim seja.Pobre lavrador , suas terras pertencerá aos poderosos , os inventores das leis e os que aprovam e não cumprem , só faz os inferiores cumprirem e arrecadam os recursos ganho com o suor do outro .
Não sou eu que digo, são fatos comprovados de crimes contra a nação e os autores protegidos e impunes. Bravo Brasil, até quando?


ISSO É O BRASIL...

A carta a seguir - tão somente adaptada por Barbasa Melo - foi escrita por Luciano Pizzatto que é engenheiro florestal, especialista em direito sócio ambiental e empresário, diretor de Parques Nacionais e Reservas do IBDF-IBAMA 88-89, detentor do primeiro Prêmio Nacional de Ecologia.


Carta do Zé agricultor para Luis da cidade.

Prezado Luis, quanto tempo.

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.
Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu.. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?
Pois é. Estou pensando em mudar para viver ai na cidade que nem vocês. Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos ai da cidade. To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.
Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.
Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?
Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né .) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite. Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?
Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.
Disseram ainda que a comida que a gente fazia ecomia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.
Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né?casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.
Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?
Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios ai da cidade. A pocilga já acabou, as vacas não podem chegar perto. Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado. Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.
Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.
Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.
Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranqüilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta com papel reciclado pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio.

(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.)
Essa carta, autoria de Fernando Linhares, foi entregue ao subsecretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Dr. Shelley Carneiro em 09/11/2005 que sensibilizado, determinou junto ao colegiado o desembargo das atividades no Engenho da Bilia.
Foi escrita na linguagem da sabedoria e astúcia de um matuto.

COPÃO significa Conselho de Política Ambiental - COPAM

Pedido de socorro

Ao seu dotô do COPÃO.
Meu nome é Gabriel e trabalho no Engenho da Raquel. Desculpe meu jeito de falá. Sô home simpre. Nasci e fui criado nas roça. Meu pai e minha mãe criô 15 fio. Meu pai curô muitas pessoa com as raiz da serra. Até as pessoa de muita importança que tão bem viva até hoje. A infança minha e de meus irmão foi de muito sufrimento no mesmo Engenho. Quando nós tinha o armoço pra cume não tinha o caderno e lápis pra escola. Quando tinha caderno faltava rôpa e chinelo de sola de pineu. Depois dos meu seti ano, nóis mudemo pro Poço Fundo.Quer dizê de poço fundo só ficô o nomi. Tudo em vorta era campo e pedra e muita secura.
Região de lapero de campo seco.
Seu dotô e compitente auturidade ficamu sabendo de sua capacidade de intendê o coração do home trabalhadô da pedra ou da cidade.Seu nome é difirci pra eu de pouco istudo escrevê.Sou home sufrido de coração duido que os home da medicina já condenô. Graças a Deus tô sempre dando minhas risada. Pra quê chorá se não adianta de nada. Não tenho INSS. Sou do sindicato rural. Farta dez anos pra aposentá. Só tem a pedrera pra eu sustentá meus fio. Já tem sete ano que eu tô lá. Antes trabaiava com dente de cão, perto da pedra minera. Lá provocou uma grande erosão. Tapou os córrego do Engenho tudo. Hoje a sarvação da nossa região seu dotô de autoridade ta sendo a boa vontade do dono da pesquisa que deixa nóis tira pedra pra ganhá os trocado e dá ele uma menor parte.
Eu não posso mais usá os braço pra ganhá meu pão como sempre fiz. O dono do terreno permitiu eu colocá dois fio meu trabaiando. Eu vou ideano o silviço delis. Já tem dois ano que vivo assim. Tenho uma renda. Tenho o trabalho de cabeça e tô feliz.Quer dizê tava feliz. Por que três fio de Deus da polícia florestá fechô tem dois mês a nossa mina de sustento. Só onde trabaio é sessenta home qui tão de braço cruzado. Fazê o quê, se na região só tem pedra. Não tem terreno bão.
Já fui pra São Paulo faze buraco no chão. Pra fincar poste. Fazê rede de esgoto botando a mão na merda de gente humana. Ganhava muito menos do que ganho agora. Sem usá meus braço que era forte. O trabaio na pedra é minha salvação. É perto da minha casa. Todo dia vorto pra minha famía. Faço minhas oração. Tinha o trabalho dia seguinte. Amanhecia como os passarinho. Rindo e com alegria ia caminhando pru silvirço.
Eles da florestal tem carro bonito. Nós temo o chinelão de sola de pineu. Chegaro dizendo que é uma denúnça pra apuração. Cês tão tudo dispensado. É a paralisação. Todo mundo si assustô. Parecia ave de arribação. Nóis vortô pra casa triste, mucho. Caminhando. Pois não temo carro. Pra lá vortá. Não somo anjo que tem asa pra voá. Somo comedô de feijão. Sofredô. Pelejando nessa terra de muita pedra. Sol quente no lombo e água pôca que trazemo de casa pra bebê no silviço.
Eu dependo pra vivê a custa de remédio. Parô a pedrera, cabô o dinheiro. Fico sem intendê. Seu dotô de autoridade. Será que eu vô sê pricisu marcá horas mais cedo com a morte?
A polícia prende e arrebenta, só no tempo dum tal de Figueiredo. Agora me dá medo de dá repetição.
Seu doto do COPÃO homi de boa vontade. Será que é verdade. Que a polícia tem capacidade de decidí a vida de nós tudo? Será que eles tem istudo igual do sinhô? Compitente doto nas lei da tiração das pedra?
Fico sem intendê seu dotô da autoridade. Por que essas lapa criada por Deus nosso Senhor incomoda tanto a florestá? Pedra não é gente. Pedra não dá semente. Não cresce, não morre nunca. Pra que tanta vigiação? Lá não tem mato. Num tem pasto. Num tem água corrente. Muito menos uma nascente. Também não tem jeito de causar erosão. Igual na pedra de dente de cão. Primero não tem terra pra chuva leva, no meio das pedra minera. Depois é tudo prano. Será que a polícia não sabe o que qui é águas vertenti?
Será que num era mio alguém do meio ambienti orientá a gente? Virificá o qui tá errado? Aguarda o tempo de cunserto pra depois a policia fecha e murtá?
A polícia chegô di repente trôxe esti presente de feliz natal. Pra nóis tudo us trabaiadô.
Os treis rei mago fizero diferente, pro Minino Jesus. Tão fazendo até hoje pra eu também. Porque nas folia de rei que nus dia de hoje eu vô é como qui o meu tempo de criança vórta ôtra veiz!
E agora, seu dotô de autoridade tô sabendo que o sinhô é home de sensibilidade. Apelo pro seu coração. Resorva nossa situação. Tamo passando fome. Alguns cumpanhero bebendo seu desespero nas garrafa de pinga. A situação é de calamidade. Em nome de Deus, dos treis rei mago. De nossa Senhora. Peço sua caridade. Oie por nóis.Tira por favô esta paralização de cima de nossas cabeça. Dá o direito de nóis drumi sono justo. Dá o direito do trabaio. Dá o direito de cidadão. Dá pra nós o nosso pão. Que eu possa ter um dinheirinho pra pagar a dentadura. Que a gengiva tá uma lisura e os dente já caiu de podre. Dá aos nosso fio, a esperança de comprá lápis e caderno pro ano que vem.
E pro sinhor, muita paz e um feliz natal. Que Deus permita que o sinhô dê pra nós este presente real de um feliz natal.
Queremo e precisamo de vortá ao trabalho. Muito agradicido pela sua atenção.
Que Deus abençõe sua decisão.

Seu criado.

Assinatura do trabalhador