Meninos de Camilinho

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Comentários
Raimundo Nonato de Miranda Chaves

Comentários Iniciais

A Secretaria Municipal de Educação informou os resultados alcançados por estudantes, de Gouveia, que concorrem nas Olimpíadas das Escolas Públicas. Tudo está publicado no sitio www.afagogouveia.org.br e será publicado também no Boletim Informativo setembro/outubro. Dentre os estudantes que ultrapassaram a primeira etapa do concurso estão representantes da Escola Municipal João Baiano, de Camilinho. São quatro aprovados em Matemática e um em Língua Portuguesa.
Eu estava em Camilinho, semana passada, e me propus a entrevistar os estudantes, até como estímulo para que continuem como estudantes de ponta. Foi assim que, às oito horas do dia 23, me reuni com quatro matemáticos e uma escritora, - trinca de valetes e par de damas, sem dúvida, um bom jogo -, assistidos gentilmente pela atenciosa diretora professora Michele. Devo esclarecer que uma entrevista padrão sempre há uma personalidade e muitos entrevistadores, no caso, havia um entrevistador e muitas personalidades. Muitas respostas são iguais ou muito semelhantes, além disso, eu usava o celular para fazer as gravações e confesso que perdi alguma fala. Portanto, apresentarei, algumas vezes, respostas sintéticas.
Ali, naquela varanda onde é servida a merenda escolar, avistando a sede da fazenda Camilinho, onde nasci; à esquerda, o prédio rústico onde cursei os três anos do primário; e à frente, a quadra poliesportiva que leva meu nome, que, até emocionado, iniciei a conversa com aqueles jovens e simpáticos estudantes, agora identificados: Olimpíadas de matemática – Amarildo Henrique, Paulo, Samira e Henrique, respectivamente, cursando 9º. , 8º, 7º. e 6º. anos Olimpíadas de língua portuguesa – Beatriz, aluna do 7º. ano.


Entrevista

P. A primeira questão versava sobre o inicio das tarefas diárias. Pedi que me informassem a que horas se levantam? Como se locomovem de casa até a escola? Quanto tempo ou quantos quilômetros percorridos de casa à escola ou de casa ao ponto do transporte escolar? Recebem algum alimento, ainda, na residência?

R. Levantam-se no entorno de seis horas e tomam café em casa. Paulo, residente na Contagem; Samira e Henrique, na água Parada; Beatriz, nos Moura utilizam transporte escolar e demoram entre dez e quinze minutos para atingirem o ponto de embarque. Amarildo reside na parte leste da fazenda Camilinho e percorre, a cavalo, o trecho até a escola; demorando cerca de quinze minutos.

P. O período de trabalho, na escola, entre 7:00 horas 11:25 horas, quando são ministradas cinco aulas de cinqüenta minutos, com quinze de intervalo para merenda escolar. Comentei, com os entrevistados, que há escolas trabalhando em regime de tempo integral, quando os alunos têm oportunidade de praticar esportes e atividades culturais, com aulas de música, dança, pintura e outras. Alem disto têm oportunidade de fazer os trabalhos escolares. Pedi que cada um deles opinasse sobre a duração do tempo de aulas: pouco, suficiente, muito longo? Qual a opinião sobre o regime de escola em tempo integral?

R. Samira respondeu que o tempo é suficiente, além disso, ela deve auxiliar sua mãe nas tarefas de casa, portanto, não concorda com a escola em tempo integral. Paulo e Beatriz apóiam a argumentação de Samira. Amarildo concorda que o tempo é suficiente e ele prefere completar os estudos em casa. Henrique, o caçula do grupo, também concorda que o tempo é bastante e não opinou sobre a escola em tempo integral.

P. Questionei sobre o relacionamento com as professoras e o comportamento delas. Vocês entendem tudo que as professoras ensinam? Quando não entendem, podem pedir explicações? As professoras respondem com delicadeza? Vocês sentem que as professoras são amigas de vocês?

R. Os cinco estudantes responderam positivamente, com elogios ao trabalho das professoras.
Eu conheço, pessoalmente, o grupo de professoras. São jovens, graduadas, e demonstram interesse e dedicação ao trabalho que realizam.

P. Ainda, com enfoque na atividade acadêmica, perguntei sobre a complementação do trabalho na residência, o chamado “para casa”. Vocês contam com algum auxilio, na residência, para tirar duvidas sobre exercícios mais difíceis? Contam com ajuda dos pais ou irmãos para sanar dúvidas? Vocês têm, em casa, livros para pesquisa? Quando não podem contar com ajuda vocês entram em pânico?

R. Amarildo se socorre com a mãe Rute; Beatriz pede auxilio à irmã, mais velha e mais adiantada nos estudos; Paulo, traz suas dúvidas para discutir com a professora, no próximo encontro com ela. Samira e Henrique rever

P. Salientei a importância da vitoria que conquistaram ao vencer a primeira etapa das olimpíadas e gostaria de saber: este resultado aumentou a auto-estima? Estão estimulados a continuarem como alunos de ponta? Os pais tomaram conhecimento e os parabenizaram? Qual a reação dos colegas e dos professores?

R.As respostas foram sempre positivas; os colegas e professores demonstraram alegria; os pais ficaram felizes, saliento a resposta de Beatriz, que recebeu os parabéns não só dos pais adotivos, mas também do pai biológico; e o comentário do mascote Henrique, ao dizer que a prova foi difícil, mas a vitória compensou.

P.Antes de encerrar a entrevista, comentei que ao terminarem o ensino fundamental, na E.M.João Baiano, eles farão, em Gouveia, o segundo grau e, posteriormente, irão se matricular em alguma universidade para o curso superior. Lembrei, no entanto, que o curso superior é importante, mas não é fundamental. Eles que são estudantes vitoriosos podem ser vitoriosos como chefe de uma repartição pública, como gerente de uma empresa, como um produtor rural de sucesso. E podem, também, fazer cursos profissionalizantes, não necessariamente, de nível superior.Após a preleção perguntei: qual o caminho que pretendem seguir?

R.Amarildo Henrique pretende estudar medicina; Paulo quer ser chefe dos Correios; Samira, Beatriz e Henrique vão continuar estudando, mas ainda não definiram a carreira que pretendem seguir.

Dei por terminada a entrevista e convidei os estudantes para uma fotografia, mas a diretora comunicou que eles queriam agradecer o meu empenho em divulgar o feito deles. E, então, cada um por sua vez, agradeceu, de forma convincente e amável tanto que a diretora, discretamente, me perguntou sobre os meus olhos lacrimejando.
Devo ressaltar que os agradecimentos foram feitos antes da distribuição de caixas de bombons que levara para presentear aqueles garotos.

Ao agracecer, Samira frizou que entrevistá-los e publicar a entrevista é, também, uma forma de parabenizá-los; Henrique gostou de saber da preocupação do entrevistador com eles; Paulo disse que ficou feliz ao reconhecer que, mesmo na zona rural, tem alguem que se preocupa com a gente; Beatriz se sentia valorizada com a entrevista porque era o reconhecimento da inteligencia deles; Amarildo Henrique reconhecia o esforço do entrevistador, ao sair de Belo Horizonte para entrevistá-los e isto valorizava o trabalho deles.

Particularmente, eu gosto de enaltecer a vitória, no caso do aluno, vitorioso no inicio de sua carreira, enaltecer o seu feito é poderoso estimulo para que ele continue mantendo o status de bom estudante. Mas, devo ressaltar, também, que um dos objetivos da divulgação é lembrar que nas escolas rurais, também, há estudantes com grande potencial e nós, sociedade e governo, temos o dever de dar a eles a oportunidade de crescer.
Os pais estão felizes e, certamente, contribuiram para o sucesso deste estudantes, por isso registro o nome deles: Pais de Amarildo Henrique: Amarildo Alves e Rute Chaves Alves; Pais de Beatriz: José Geraldo Moura da Silva e Maria de Fátima Almeida da Silva (adotivos); Vanir (pai biológico) a mãe biológica, irmã de Maria de Fátima, já faleceu; Pais de Henrique: Messias Alves da Silva e Silvia Aparecida Mendes; Pais de Paulo: Geraldo Serafim de Almeida e Maria Aparecida; Pais de Samira: Francisco Rosário dos Santos e Reginalda Maria da Silva.
Os alunos entrevistados, o par de damas e a trinca de valetes, não representam o aluno médio da E.M.João Baiano. Eles não constituem amostra que satisfaça aos critérios estatísticos, portanto, não representam a população.

Comentários finais

Estive falando, até aqui, de cinco estudantes de uma população de cem, que representam a elite da escola. Agora, falarei do aluno médio que ao terminar o ensino fundamental deverá se matricular na E.E.Joviano de Aguiar, em Gouveia, para cursar o segundo grau. Ora, sabe-se que a proficiência do aluno da escola urbana é maior do que a do aluno da escola rural;. Informação fornecida, anualmente, pela Secretaria de Estado da Educação. Na Joviano de Aguiar, os alunos da escola rural são programados para o turno da noite, onde terão como colegas estudantes da periferia que normalmente trabalham durante o dia e estudam à noite, possivelmente, com o mesmo nível de proficiência. Mas, há também a condição de transporte. Pelo menos, três dias em cada semana, os estudantes de Camilinho embarcam às 15:30 horas, para assistirem a primeira aula, em Gouveia, pouco antes das 19:00 horas, donde resulta uma tremenda perda de tempo. Resultado o estudante inicia o segundo grau defasado e termina mais defasado ainda. Então, surge o inesperado. Para continuar os estudos, passar ao terceiro grau ou ao nível superior há a barreira do vestibular, o gargalo para seleção dos melhores; diz-se o fatídico vestibular. Eu, então, pergunto o vestibular é difícil ou o estudante é despreparado?
Será coincidência que estudantes, muitas vezes, se submetem ao vestibular em meia dúzia de faculdades e passam em todas, enquanto outros, com o mesmo número de tentativas, passam em nenhuma?
A solução será a política de cotas? O erro não está lá no curso fundamental, na preparação do aluno desde o inicio? Eu já escrevi e já falei bastante sobre a deficiência das escolas rurais em relação às urbanas e a deficiência destas em relação às particulares. Utilizarei, aqui, argumentos de pessoas mais gradas.

Biblioteca

O Diário Oficial da União do dia 25 de maio, publica a lei 1244/2010, determinando que todas as escolas brasileiras, em dez anos, tenham uma biblioteca com acervo de pelo menos um título por aluno matriculado. Palavras do senador Cristovam Buarque, relator do projeto que aprovado e sancionado tornou-se a lei citada; Este projeto só tem dois defeitos: demorou tantas décadas para ser aprovado e estabelece um prazo longo para sua execução. Os sistemas de ensino poderiam reduzir de 10 para cinco anos o prazo de instalação das bibliotecas. E continuou o senador, fazendo a comparação: A verdade é que as classes educadas do Brasil já estão chegando à época digital, com os e-books, (livros eletrônicos) enquanto as camadas sem acesso à educação ainda não entraram no tempo de Gutenberg, quase 600 anos depois que ele inventou a imprensa.

Internet

A cerimônia de lançamento do Banda Larga nas escolas foi realizada em abril de 2008, no Palácio do Planalto, em Brasília, e contou com a presença do presidente da República, dos ministros da Educação, da Casa Civil, das Comunicações e do presidente da Anatel.
Para o ministro da Educação, Fernando Haddad, a internet nas escolas é um fator que pode diminuir a desigualdade. Essa iniciativa representa uma equalização das oportunidades educacionais no país. No Brasil, os desafios para a educação são mais uma questão de eqüidade que de igualdade. O ministro, ainda, lançou o desafio de levar a internet também às escolas rurais. A cidadania não pode estar limitada ao âmbito das cidades. Precisamos de laboratórios também nas escolas rurais.

Desigualdade Social

Os dados são de uma pesquisa apresentada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil - CNA que avaliou a situação das escolas rurais de dez estados brasileiros. Mais de 50% dos alunos da escola rural são das classes D e E. Quase um terço dos pais desses alunos nunca estudou ou não chegou a completar a 4ª série do ensino fundamental. Apesar das condições desfavoráveis, 56% das famílias acreditam que o aluno vai chegar ao ensino superior e 99% dos alunos disseram que seus pais falavam para ir para a escola e não faltar às aulas é o exemplo de pessoas com baixo nível de escolaridade, acreditando na educação e na forma de diminuir a desigualdade social.