Jubileu do Cemitério do Peixe - 7 a 15 de Agosto de 2011

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Autor:Raimundo Nonato de Miranda Chaves

Muitos artigos, reportagens e pequenas mensagens já foram escritas sobre a Romaria do Cemitério do Peixe. Muito mais, ainda, será escrito.
Por que?
Primeiro, as matérias publicadas soam como o badalar dos sinos que anunciam aos fieis o inicio de orações; as mensagens escritas lembram aos devotos que é época de romaria, é a ocasião do encontro com São Miguel e Almas; o poderoso arcanjo, ansioso, espera o encontro anual com seus devotos; o Reverendo Padre Mauro Carvalhaes, à frente do grupo de voluntários, cuida da adequação do local, carpindo, varrendo, remendando e pintando paredes, lavando pisos, pregando madeira, reparando defeitos na tubulação hidráulica e na fiação elétrica. Meu Deus! Ainda falta recuperar o palanque da frente da Capela e o material não está disponível. E a Casa dos romeiros, já está cuidada e abastecida? A publicação alerta e estimula os fieis.
Segundo, o Cemitério do Peixe é um lugar enigmático, místico, uma cidade fantasma aonde não há residência fixa, no entanto, reúnem-se, ali, durante a segunda semana de agosto, milhares de pessoas vindas das mais diversas regiões. Do local, parece que emana um fluido que estimula a emoção dos fieis, que comove os devotos; os cronistas não são exceção, por isso, põem-se a escrever. A repetição anual da romaria reforça a fé dos participantes, na maioria, gente do meio rural.
O contato com São Miguel representa para suas almas o que as chuvas que caem, dois meses depois da romaria, representam para seus campos e lavouras.
Terceiro, a história do lugar é fascinante e atrai o cronista que sempre deseja encontrar temas atraentes para suas crônicas. Na maioria das vezes misturam fatos reais com mitos e lendas. É o preço que se paga pelo nosso desprezo à documentação. Não havendo registros, a história é transmitida por via oral, com a conseqüente perda de informação ou mesmo distorção do fato ocorrido. Acredito em melhoras, no futuro próximo, porque o Cemitério do Peixe já desperta atenção da comunidade acadêmica. Hoje se pode contar com Monografia produzida pela estudante Maria Luiza da Silva e apresentada como requisito para graduação em História na Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG. Em faze de projeto, a estudante Lúcia Tânia. Prepara sua Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG; para tal será necessário pesquisa histórica muito mais profunda.
Esta crônica deve atender ao exigido nos três parágrafos anteriores. Então, o primeiro. Alerta geral:








Padre Carvalhaes estará no Peixe do dia sete ao dia quinze de agosto. Antes desta data, ele já esteve lá inúmeras vezes para coordenar o trabalho dos voluntários. Alerta para os proprietários: é hora de se dedicar à sua residência temporária, pintar as paredes, trocar as telhas quebradas, reparar portas e janelas, cuidar da reforma do banheiro que está sempre sendo adiada. Alerta aos sem casa: providenciem suas barracas e a tralha necessária para acampar.
Aos senhores prefeitos de Gouveia e de Conceição do Mato Dentro atuando, respectivamente, do lado direito e do lado esquerdo do Rio Parauna, divisor dos municípios, conservem as rodovias, recuperem os pontilhões e os mata-burros, atendam às necessidades dos seus eleitores. Aos amantes das cavalgadas: reúnam os amigos, cuidem da tropa, dos arreios e da tralha. Organizem-se. Às Ministras da Eucaristia, preparem-se para auxiliar o Reverendo Padre Carvalhaes na liturgia. Às catequistas, cuidem-se para que as crianças, no ato da confissão, levem poucos pecadilhos. Finalmente, a todos aqueles que são adeptos de outras religiões ou, talvez, de nenhuma delas e participam da romaria com o intuito de se divertirem ou por simples curiosidade turística. Vocês têm o direito de ir e vir. Mais do que isto, são até bem vindos como convidados do Arcanjo Miguel, mas lembrem-se que seus direitos terminam aonde começam os direitos dos outros. Lembrem-se que estão reunidos com um grupo católico fervoroso que teve a iniciativa do ajuntamento, portanto, vocês não têm o direito de perturbar. A este respeito devo ressaltar que a religiosidade está diminuindo, segundo algumas opiniões. Quero registrar que freqüentei o Peixe quando criança, quando jovem e quando adulto, nas décadas de quarenta e cinqüenta. Quando se realizavam grandes negócios, sempre realizados na várzea que se estende na margem do Paraúna. Eram comercializados café e tropas vindos da zona da mata, comunidades de Córregos, Tapera e Sapo e vendidos para compradores do sertão, incluindo: Fechados, Ponte do Parauna e região do Rio Cipó. O que em nada afetava compromissos religiosos: Missas na parte da manhã, terço e ladainhas à noite e, durante o dia, batizados, casamentos, lições de catecismo e confissões. Então, os comerciantes podiam dispor de muitas horas para fazer o seu trabalho. Quanto à algazarra, culpo mais a tecnologia do que o povo. Naquela época o som era produzido pelas sanfonas de oito baixos, conhecidas como pé de bode. Hoje, um único potente som automotivo faz mais estrago do que uma dúzia das citadas sanfonas. A permissividade entre jovens, hoje, é muito maior do que naquela época, no Peixe ou em qualquer outro lugar. Mas, apenas para citar, no passado usava-se com freqüência a Capa Gaucha para proteger do frio e, muitas vezes, ouvia-se o Reverendo Padre Gaspar esbravejar do púlpito contra o que ele identificava como: “Capa com quatro pernas”.
A respeito do segundo parágrafo, realmente me sinto emocionado ao lembrar-me das idas ao Peixe, quando criança, na década de quarenta. Partia de Camilinho, acompanhando a família, todos a cavalo. Cada qual no seu, meu pai nos proporcionava esta regalia. Minha mãe usava o silhão – sela especial para mulheres. A tralha de cama e cozinha em carro de bois – oito bois de chifres longos – atravessavam o Parauna no vau do carro, mais raso, mas, em contra partida, percorrendo trecho mais longo de caminho. Os carreiros: João Pinto, Geraldo Rita ou Augusto Teodoro cujas almas desencarnadas podem estar presentes no Peixe. Para registro, três fatos que não acontecem na atualidade: O abastecimento de água no rio Parauna e seu transporte morro acima, em latas e baldes, nas cabeças ou nos ombros, era tarefa dura. A presença de vendedores de quinquilharias que vinham de Belo Horizonte, eram os mascates, faziam a alegria do povo com as novidades. Hoje, diante de mercadorias disponíveis fica difícil até imaginar a sensação de um garoto do meio rural, na década de quarenta, ver um canivete tipo suíço, mesmo o mais simples, com duas laminas, uma chave de fenda e uma tesoura além do abridor de garrafas? Finalmente, o cego, hoje, nem mais se fala cego, são deficientes visuais. Com seus chocalhos e cantoria no estilo nordestino. Quando recebiam a moeda, perguntavam pelo nome do doador e improvisavam o agradecimento.
O que acontece agora e não no passado? O bazar da Igreja, aonde se faz a venda, por preços mínimos, de roupas usadas em bom estado de conservação. Portanto, se você tem roupas que não são mais usadas leve-as para o bazar. Elas serão úteis para outras pessoas.
Agora o terceiro parágrafo, a história do Jubileu do Cemitério do Peixe. Registro alguns tópicos que ainda não li em crônicas anteriores. Durante a exploração de diamantes na Comarca do Serro Frio, especialmente no Tijuco, hoje Diamantina, nos séculos dezessete e dezoito, a quantidade de diamantes produzida era tão grande que despertou a cobiça da Coroa Portuguesa. Demarcou-se, então, área geográfica denominada Distrito Diamantino. Este distrito era um estado dentro do estado, regido por leis próprias que traduziam a tática repressiva da Coroa. As leis, extremamente rígidas, compiladas no Regimento Diamantino, livro que ficou conhecido como o Livro da Capa Verde. A autoridade maior no distrito era o Intendente dos diamantes, responsável pela guarda das terras diamantinas. O Intendente controlava toda a produção e comércio de diamantes e, tinha poderes de morte civil de qualquer pessoa: livre ou cativa, podendo expulsá-la do distrito, podendo despojá-la de todos os bens, isto, ao seu livre arbítrio. O limite sul do distrito diamantino era o Rio Parauna, desde suas cabeceiras até a foz do Ribeirão de Areias. Daí, em linha reta, até a foz do Rio Pardinho, no lugar denominado Forquilha. e segue... Importante que a divisa está muito próxima do Cemitério do Peixe.
Para garantir o controle sobre o comércio de diamantes a autoridade impunha a fiscalização rígida sobre pessoas e mercadorias nas saídas do distrito. Um destes pontos era no local conhecido como Contagem do Galheiro, pouco adiante de Camilinho. O outro era o local denominado Quartel do Peixe. Eram as saídas do distrito diamantino para o sertão e para Sabará. Imagina-se que o suprimento alimentar dos militares acantonados nestes postos de fiscalização era de responsabilidade deles próprios que se viravam com caça e pesca. Imagina-se que o suprimento de sal – única forma de conservar a carne -, era feito com certa dificuldade. O sal, vindo do litoral, devia ser coisa rara e, assim, a intoxicação com peixe em decomposição é facilmente explicável, pela não disponibilidade de sal. Depois da intoxicação, a morte é conseqüência natural e o posterior sepultamento, ali mesmo, tendo uma cerca rústica como proteção, por absoluta falta de condições de transporte dos policiais mortos. O relato sobre a fazendeira Carlota Augusta de Miranda que enterrou escravo de nome Peixe, morto quando contrabandeava diamantes, é fruto do imaginário popular, sem sustentação documental. Carlota Augusta era a primeira esposa de Canequinho cuja participação na história ocorreu muito tempo depois. A demarcação do distrito diamantino, ampliado, ocorreu em 1739 e perdurou por cerca de oitenta anos, até a Constituição das Cortes no Tijuco que ocorreu em 1821. O Jubileu do Peixe iniciou quase cem anos depois, em 1915. A celebração da primeira missa, ainda em 1890, pelo reverendíssimo padre Ernesto, vigário de Congonhas do Norte e inicio do Jubileu em 1915 com autorização do Arcebispo de Diamantina são fatos históricos, sempre repetidos em todas as publicações disponíveis.
Escrevo para registro que Antônio Francisco Pinto, vulgo Canequinho, é natural de Camilinho filho de Antonio Francisco Pinto Mundeo e Idalina Bernardina da Conceição. Canequinho é parte de uma família de construtores de Capelas. Ele construiu a do Cemitério do Peixe, seu irmão: Manoel Pinto de Miranda, vulgo Niquinho, construiu a capela de Camilinho dedicada a N.S. das Dores. Segundo informações verbais, ambas as capelas foram construídas por um par de gêmeos de nomes: José Francisco e Francisco José, hábeis carpinteiros e pedreiros, residentes em Camilinho, possivelmente filhos de Antonina Teles, proprietária rural na margem esquerda do córrego da Sepultura. Niquinho construiu a capela de N.S. das Dores em frente à sua residência, a menos de cem metros de distância. Canequinho optou por construir a capela de São Miguel e Almas em sitio isolado da fazenda do Vassalo, sua residência, relativamente distante da sede, na divisa oeste. Imagina-se que o local aonde foram sepultados os militares, incipiente cemitério, tenha sido usado e ampliado pelos residentes nas proximidades, até pela falta de opção aonde sepultar seus mortos. Pode ter sido a justificativa de Canequinho.
Finalmente, pequeno comentário sobre uma possível represa no Rio Parúna e a conseqüente inundação do Cemitério do Peixe. A verdade sobre o assunto é a construção de três pequenas centrais hidroelétricas nas corredeiras do rio a jusante do Cemitério do Peixe. As centrais são identificadas como: Quartel I, Quartel II e Quartel III. Delas a mais próxima é Quartel I cuja represa está a 6,13 quilômetros do Peixe. Tranqüilizem-se. Ninguém seria besta de se meter com o poderoso Arcanjo Miguel, até o Demo se deu mal com ele. Permaneçam sob sua proteção, rezem e se divirtam.